Dalton Jérson Trevisan sempre foi avesso à imprensa, criando uma atmosfera de mistério em torno de seu nome. Não dá entrevistas nem gosta de ser fotografado. Deu bobeira no centro de Curitiba e eu, de pronto, caricaturizei o
Vampiro. Talvez seja uma raridade essa caricatura. Assina apenas
"D. Trevis" e não recebe a visita de estranhos. O apelido de
"O Vampiro de Curitiba" veio do título de um de seus livros. Quando era estudante de Direito, Trevisan costumava lançar seus contos em modestos folhetos.
O coelhinho Dalton TrevisanJosé Carlos Mendes BrandãoÉ a lembrança de um encontro com uma personagem de Dalton Trevisan. O autor invisível, inabordável, que ninguém entrevista? Pois eu conheci uma personagem dele, que entregou o misantropo, deu o serviço com a maior bonomia - o que é isso? Deu com a língua nos dentes, com a maior sem-cerimônia. Entregou o que havia para entregar e o que não havia tim-tim por tim-tim, que nem conto(...) A princípio não acreditei. Personagem do romance A Dona da Pensão? E Dalton já escrevera romances? (Ah, o encontro com Dona Marta foi em 1986.) Tanto se tem repetido que o seu caminho será do conto para o soneto, para o haicai, que eu me esquecia de que A Polaquinha acabara de sair (1985) e de que eu lera um outro romance dele, em uma velha edição artesanal, Sonata ao Luar. Já estava ali presente a linguagem de Dalton, a atmosfera sombria, sofrida, Aquilo era o aprendiz Dalton Trevisan, um dos mais sérios escritores que já houve(...) Dalton ficou de quarentena quando criança, preso (num sótão?) e por isso tem pavor de lugares fechados. Deixo aqui a interrogação: o que isso tem a ver com a sua arte? Dizem que o artista carrega algum trauma que o fez ver o mundo de maneira diferente; pode ser, às vezes, mas muita gente carrega traumas, pode ver o mundo de forma diferente ou não, sem ser necessariamente artista. Pode explicar o seu isolamento, a sua solidão, mas a arte é um ato solitário, não há novidade nisso(...) Verdade que Dalton colabora, fechando-se em seu casulo. Falar pouco não faz de ninguém um artista, nem um ser infeliz. Mas os outros têm de procurar o que há de estranho nesse estrangeiro que é o artista, como se não fôssemos todos estrangeiros neste mundo(...) De um lugarejo perto de Curitiba surgiu um filho natural do velho Trevisan, homem de conduta exemplar. O jovem Dalton revolta-se. O Vampiro de Curitiba é o pai de Dalton Trevisan, sabiam? Foi a sua vingança, é o que me conta a boa Dona Marta. Gostaria de acreditar, acho que até Dalton Trevisan gostaria de acreditar: é uma explicação simples demais, facilitaria bem as coisas. O vampiro de almas, vivendo do sangue dos corações solitários, seria um simples ressentido – simples, não? Nem sei por que levanto a questão – para os ressentidos, vá lá, ou para os que buscam explicações fáceis. Creio que a gênese da verdadeira arte não se explica. Não que seja um sopro divino – é trabalho árduo, o mais são questionamentos inúteis.
Felizmente Dalton conseguiu o sossego suficiente para continuar o seu trabalho insano. Levanta-se, cuida de sua horta, dá uma voltinha para comprar os jornais e depois escreve, escreve como um condenado. Viajou pela Europa e de lá trouxe o hábito de tomar a primeira refeição como os europeus, conta a Dona Marta. Fiquei com a imagem do coelhinho entre as suas cenouras, os brancos dentões à mostra. Feliz. É feliz essa ligação do homem com a natureza. Depois o coelhinho recolhe-se à sua toca, os pesados óculos no nariz, e passa a ver o mundo com outras cores. Usando um trocadilho (deplorável como todo trocadilho), diria que Dalton é daltônico, isto é, troca as cores, vê o mundo marrom, asfixiante, sem salvação. É um certo expressionismo, sem o qual a arte seria uma mera cópia da realidade. O artista ensina o homem a ver e de qualquer modo o salva. Salve, Dalton.
José Carlos Mendes Brandão nasceu em Dois Córregos, SP, em 28 de janeiro de 1947. Publicou O Emparedado, Exílio, Presença da Morte e Poemas de Amor. Ganhou os prêmios “Estadual de Literatura” (GB), “José Ermírio de Moraes”, do Pen Centre de São Paulo, para melhor livro de poesia do ano, V Bienal Nestlé de Literatura Brasileira, Brasília de Literatura, Nacional de Literatura “Cidade de Belo Horizonte” (2000, por um romance inédito, e 2002, por um livro de poesia também inédito).