sábado, 31 de outubro de 2009

Torquato Neto

Paulo Couto Machado

Vale a pena lembrar que, após o Golpe Militar de 1964, as elites nacionais, sob a orientação do Estado Maior das Forças Armadas, criaram o mito do país em desenvolvimento e puseram à margem o projeto de Nação que as duas gerações de modernistas tinham elaborado. No final da década de 60, no País do Futebol, era proibido pensar. O poeta Torquato Neto assumiu, a partir dos dois últimos anos da década, a incomoda tarefa de pensar e criar de forma consequente. Resgatou a proposição de "desafinar o coro dos contentes" e imprimiu integridade à Geleia Geral. Pôs em curso a poética da resistência cultural, que tem início com Grégorio de Matos e continuidade com Tomás Gonzaga, Sousândrade, Augusto dos Anjos, Oswald de Andrade e Carlos Drummond Andrade. Na linguagem poética de Torquato Neto, estes referenciais culturais estão presentes e conscientemente digeridos. Quem estiver disposto a conferir, leia, com urgência, os poetas indicados e fará descobertas surpreendentes. Depois, vai pintar uma vontade irresistível de repensar o Brasil
Torquato Neto cometeu suicídio aos 28 anos, no Rio de Janeiro, em 1972.

Paulo Machado é Advogado, Defensor público, poeta e contista.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O Último Crítico

"Quando Curitiba tinha 200 mil habitantes, provavelmente havia 50 intelectuais; agora que ela tem quase dois milhões de habitantes, haverá uns 200. Quer dizer, é sempre a mesma proporção. É verdade, porém, que alguns meios modernos de comunicação suplantaram muito a leitura. A televisão, por exemplo, substituiu de uma maneira espantosa a leitura no lar. Praticamente ninguém mais lê em casa. As famílias não lêem. Os filhos não vêem os pais lendo. Eles vêem os pais assistindo televisão. Não se lê mais, vê-se a imagem na tevê. A própria internet é uma espécie de substituição da leitura. É a leitura por imagem. Não se lê o texto na internet, está-se vendo o texto na internet. A internet dá informação, mas não dá conhecimento. Esse é um aspecto que pouco se observa. É facílimo levantar, por exemplo, uma bibliografia sobre Dante. Sabe-se tudo sobre Dante, mas nada sobre o poeta. Esse é o grande engano da internet. O que se teria de fazer é transformar a informação em conhecimento".
Wilson Martins sempre diz que tem uma receita infalível para identificar livros ruins em seu ofício de crítica. Ele lê deitado. Se depois de algumas páginas cair no sono, é porque o livro é muito ruim.

Entrevista a Rodney Caetano – Jornal Rascunho.

sábado, 10 de outubro de 2009

Fundação Quixote

A edição deste ano de 2009 marcou o Salipi. Além de quatro convidados internacionais, pela primeira vez o evento saiu do Centro de Convenções e foi até à Praça Pedro II, com abrangências ao Centro Artesanal e Theatro 4 de Setembro. Durante o encerramento a equipe organizadora revelou o homenageado de 2010: Fontes Ibiapina. O autor, nascido em Picos (PI), na zona rural, em junho de 1921, assinou em torno de 30 títulos, como “Crendices, Superstições e Curiosidades Verídicas no Piauí”.
Os palestrantes deste ano foram: Domício Proença Filho, Aldemaro Taranto, José Castelo, José Eduardo de Siqueira, Dimas Macedo, Zuenir Ventura, Laurentino Gomes, Carlos Nejar, Ismênia Sales de Souza, Alcione Araújo, Márcio Trigo, Evanildo Bechara, Paulo César de Araújo, Arnaldo Bloch, Thiago Falcão, Nádia Gotlib, Márcia Morais, Yasmim Madeira, Gutemberg Gameiro; Charles Perrone (EUA), Isabel Ferreira (Angola), Senel Paz (Cuba) e José Pacheco (Portugal).
O Salipi teve presença de mais de 200 mil visitantes nos seis dias do acontecimento.
Leia o que disseram Zuenir Ventura e Arnaldo Bloch em ARTIGOS nas páginas do jornal "O Globo" do Rio de Janeiro.
http://www.fundacaoquixote.org.br/princ.html

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Jabuti Bíblico

Moacyr Scliar é um dos vencedores da 51ª edição do Prêmio Jabuti. O autor levou o 1º lugar na categoria de Melhor Romance com o livro Manual da Paixão Solitária. A lista completa da premiação foi divulgada nesta terça-feira (29/07/09)), porém a entrega dos prêmios acontecerá no próximo dia 4 de novembro, em São Paulo. Inspirado no pequeno e enigmático relato do Livro do Gênesis História de Judá e de Tamar, o autor de A Mulher que Escreveu a Bíblia e Os Vendilhões do Templo fala em seu novo livro dos sentimentos e emoções básicos do ser humano.

O nome do prêmio

Mas por que um jabuti para nomear um prêmio do livro? A resposta, tem explicação no ambiente cultural e político da época, influenciado, sobretudo, pelo modernismo e nacionalismo, pela valorização da cultura popular brasileira, nas raízes indígenas e africanas, nas suas figuras míticas, símbolos seculares carregados de sabedoria e experiência de vida e legados de uma geração à outra. Sílvio Romero, Mário de Andrade, Monteiro Lobato e Luís da Câmara Cascudo, entre o final do século XIX e o início do século XX, foram pioneiros na pesquisa, no estudo e na divulgação dessa rica cultura popular. Essas discussões em torno de uma “láurea” ou “galardão”, como se dizia na época, ganharam forma na diretoria seguinte, de 1957-1959, presidida por Diaulas Riedel, a quem coube a confirmação da escolha da figura do jabuti para nomear o prêmio e a realização de concurso para a confecção da estatueta, vencido pelo escultor Bernardo Cid de Souza Pinto.
Fonte: Site do Pêmio Jabuti

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Paulo Machado

cartum
a careta de gozo
cartum
a carta-bomba
cartum
o cisco no olho
cartum
o coração do acrobata
cartum
o cruzado de esquerda
cartum
a curva fechada
cartum
a pedrada na vidraça

Paulo Henrique Couto Machado é piauiense de Teresina. Advogado, Defensor Público, poeta e contista. Livros publicados: Tá Pronto, Seu Lobo? (poemas - 1978)), A Paz do Pântano (Poemas- 1982)) e Na Trilha da Morte (sobre a morte dos índios).
Ao prefaciar o livro Tá Pronto, Seu Lobo? (1978), o escritor Cineas Santos escreveu: "Grande parte dos poemas que constituem este livro tem gosto de reportagem de rua: são flashes de uma cidade que se transforma, que se desumaniza (perdoem o lugar comum), pela ação (in)consciente dos donos da vida".

terça-feira, 15 de setembro de 2009

GERALDO CARNEIRO

fizemos piqueniques em Pasárgada
tramamos romances rocambolescos
nas praias mais improváveis.
cifras grifos dragões d'além mar
cuspiam fogo em nossa eros-dicção
você era mais luz: eu era mais treva
fomos quase felizes para sempre
antes que você escolhesse o dia
a hora o grand-finale do espetáculo
(ou não escolhesse: a morte é sempre
um pas-de-deux com o deus do acaso)

principalmente

sempre fui bem tratado como um príncipe
e fui me afeiçoando aos privilégios
aos florilégios e às vilegiaturas
que me couberam neste reino etéreo
e deletério, porque o esquecimento
é tão inevitável quanto a vida
e a morte é toda feita de mistério.
procuro ouvir a sorte nos meus búzios
como o Bilac ouvia suas estrelas,
coisa que nunca ouvi, mas compreendi
mesmo não tendo credo acreditável.
fui construindo assim meu edifício
sobre essa arquitetura de quimeras,
cujo arquiteto talvez fosse cego,
ou gênio, ou simplesmente ausente.

http://www.geraldocarneiro.com

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

SALGADO MARANHÃO

São feitas de crisântemos as fibras
desse fogo que se molda à palavra
(e a esse jogo em que o amor se equilibra
como se a vida, então, fosse escrava);
ou, talvez, da pelagem de uma tigra
(que ocultasse um vulcão em sua lava)
para blefar que fica enquanto migra
para fingir que beija quando crava.
Mas isto são hipóteses ou arenga
ao que se queira ou não está à venda:
um terçar de lábios na carne brusca.
São só pegadas do que seja a lenda
de algum tesouro que se nos ofusca,
que ao tê-lo não se tenha mais que a busca.

Salgado Maranhão (José Salgado Santos) nasceu em Caxias, no Maranhão.Vive no Rio de Janeiro desde 1973. Seus primeiros poemas foram editados na antologia Ebulição da escrivatura, publicada pela Civilização Brasileira, em 1978.
Tem os seguintes livros de poesia publicados: Punhos da serpente, Palávora, O beijo da fera, Mural de Ventos, Prêmio Jabuti – 1999 por Mural de ventos e Pelagem da Tigra. É também letrista de música popular brasileira, tendo parcerias e gravações com Ivan Lins, Paulinho da Viola, Elba Ramalho, Zizi Possi e Ney Matogrosso, entre outros.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

RONALDO WERNECK

ROTA: FELLINI
Cena 2

tudo que em mim criança
e circo e clowns e dança
tudo que em mim convida
para a festa da vida
e roda roda-rota
rota-rota de acordes
tudo que me recorde
tutto che me a m'arcord
ch'è una festa la vita
os pés sujos de infância
têm-pó e água límpida
as mãos sujas de dolce
vita em meio: estrada
rota-receio-ponte
de vida e vitelloni
alegria que dança
tutto tutto que em mim
rimini-relembrança
minas não mais oprime
tudo que em mim menino
rota-rito-fellini

De “Revisita Selvaggia”/2005
caricatura e foto-montagem com a atriz/esposa do cineasta Fellini, Giulietta Masina: joão de deus Netto

quinta-feira, 23 de julho de 2009

RESEDÁ, POESIA QUE SE FAZ PERFUME

Edmílson Caminha

Perfume de resedá (Teresina, Oficina da Palavra, 2009), do poeta piauiense Paulo José Cunha, tem a riqueza de Boitempo, de Carlos Drummond de Andrade, a força do Poema sujo, de Ferreira Gullar, e a eloquência da Invenção do mar, de Gerardo Mello Mourão. Mais do que poemas grandes, são grandes poemas, pela quase compulsão com que se fizeram e pela intensidade com que emocionam quem os lê. Foram criados não porque assim resolveram os autores, mas porque a eles se impôs dar-lhes forma, como destino e catarse. Escrever ou morrer, devem ter sido as opções para a escolha.
Em seu admirável poema, Paulo José Cunha desce ao mais remoto de si mesmo, à caça do tempo vivido, das brincadeiras da infância, dos tipos de rua, dos sonhos de menino e dos desejos de rapaz... Mergulho a que tem direito o poeta, “pois já bebi o sol dessas auroras / chorei poentes de amargura / e hoje venho / os pés cobertos / da poeira dos quintais / dar testemunho de meu tempo / e reclamar / a herança que me cabe / por consuetudinário direito / e certidões / passadas em cartório / onde os assentamentos / ferrados / a bico de pena / ou ponta de punhal / me asseguram / a posse dessas memórias”. São versos magistrais, que inscrevem Perfume de resedá entre as mais belas realizações da poesia brasileira contemporânea.
No correr dessa busca proustiana, emerge Teresina, não o município, a capital de estado, mas a terra em que se vive e se ama, a que Paulo José Cunha, com saber e talento, dá expressão lírica e grandeza literária. Fica-nos a lição do poeta: o que verdadeiramente imortaliza uma cidade não são prefeitos, nem estátuas de heróis nem o dinheiro que circula, mas a matéria humana e a beleza de obras como Perfume de resedá. Assim, Teresina sobreviverá ao tempo qual uma Jerusalém plantada entre rios, para a perpétua memória dos que a amam porque nela nasceram, ou porque (como eu...) a trazem, por destino e escolha, na algibeira do coração.

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Mestre imbatível & profético poeta do Piauiês – haja vista as quatro edições da Enciclopédia Internacional que trata de tão transcendente tema, e só não o esgota porque ele é mesmo inesgotável – Paulo José Cunha retorna com este Perfume de Resedá às trilhas da poesia, 25 anos após o lançamento de Salto sem Trapézio. E não se permite usar qualquer rede ao se lançar em voo cego, mas visionário, sobre essa sua vida teresina & atávica, “onde a memória é pouca/ e o tempo é vento/ e passa”. Um belo livro-poema, pleno de pés-de-página, que esse tal de piauiês precisa mesmo de saborosas explicações pra mode de ser entendido. Ils ont oublié leur propre enfance, disse um dia aquele Sartre existencial. Paulo José, não. À margem do esquecimento, ela está toda aqui, sua infância-poesia – tátil, sensorial, recendendo a resedá e remetendo a um tempo presente-passado: “assim/ em ritmo de ventarolas e contas de rosário/ a vila se aviava devagar/ como a vida deve ser”. Essa vida que se vaivém só “para provar que o impossível/ é apenas o que ainda não aconteceu”. Saga-vida: “o povo daquele tempo/adormecia em sépia/nos porta-retratos/ ou amarelecia em séculos/ nos álbuns de família”. O que há, o que havia, é a vida que se avia como “o cristal daquela infância/ há tanto tempo partida/ressuma agora/ pálido esmaecido”. Vida que se avia e que se vaivém como “o cajueiro/ uma pedra/ o jipe de buriti/ e esta mania/de caminhar sobre as nuvens”. Paulo José cunha neste livro sua melhor moeda: um sólido poema-de-um-só-folego, pleno de pedras-de-toque.

Ronaldo Werneck/julho 2009

quarta-feira, 15 de julho de 2009

O Projeto de Extensão Interinstitucional "100 Anos Sem Euclides" tem a finalidade de promover uma série de ações artísticas, culturais, acadêmicas e educativas, direcionadas a diversos segmentos da sociedade fluminense, como forma de marcar os 100 anos de morte do escritor e acadêmico Euclides da Cunha.
Um dos mais geniais escritores da literatura nacional e do continente sulamericano, nascido no século XIX, no município fluminense de Cantagalo, Euclides da Cunha é considerado um expoente quando se fala em antevisões da modernidade. De muitas maneiras, Euclides foi pioneiro no jornalismo literário, no tratamento das questões nacionais, enfim, na densidade narrativa que sempre cercaram a sua obra e a sua própria vida.
Vida que teve fim de forma trágica, aos 15 dias de agosto de 1909, na Estrada Real de Santa Cruz, num momento em que caiam por terra também as primeiras efabulações da República nascente - todas denunciadas com vigor e preciosismo pelo escritor cantagalense, nas páginas conclusas e inconclusas que lapidou sobre sertões e selvas brasileiras.
Portanto, é justo e necessário que, neste ano de 2009, tenham vez múltiplas iniciativas pelo país afora, a fim de celebrar a vida e a obra do escritor que nos ensinou a ler as entrelinhas de uma história "incompreensível", mas viva e sempre a provocar outras e díspares leituras.
Ainda que a data, simbolicamente, lembre o funesto desfecho de uma vida marcada por um tanto de iluminação e outro tanto de infortúnio, que ela seja representativa de uma vontade pacífica de permanente reconstrução do futuro de nosso país e de nossa gente.

Os coordenadores do Comitê Executivo do Projeto "100 Anos Sem Euclides" são os seguintes:
Anabelle Loivos Considera Conde Sangeni - UFRJ - FE e Luiz Fernando Conde Sangenis - UERJ - FFP
Site do Projeto: http://www.projetoeuclides.iltc.br/

segunda-feira, 13 de julho de 2009

MANUEL BANDEIRA

"O livro mais precioso de minha biblioteca é um velho caderninho de folhas pautadas e capa vermelha, comprado na Livraria Francesa, Rua do Crespo, 9, Recife, e em cuja página de rosto se lê 'Livro de assentamento de despesas. Francelina R. de Souza Bandeira'. Era o nome da minha mãe." Mais adiante, diz: "Sinto meu avô materno nos meus cabelos, sinto-o em certos meus movimentos de cordura. (...) Minha mãe transmitiu-me traços de meu avô que, no entanto, não estavam nela. Que grande mistério que é a vida".

Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho nasceu no Recife no dia 19 de abril de 1886. Comemora 80 anos, em 1966, recebendo muitas homenagens. A Editora José Olympio realizou em sua sede uma festa de que participaram mais de mil pessoas e lançou os volumes Estrela da Vida Inteira.
No dia 13 de outubro de 1968, às 12 horas e 50 minutos, morre o poeta Manuel Bandeira, no Hospital Samaritano, em Botafogo, sendo sepultado no Mausoléu da Academia Brasileira de Letras, no Cemitério São João Batista.

sábado, 23 de maio de 2009

MACHADO DE ASSIS

O Velho Senado

Último parágrafo – Final de sessão; os senadores se indo, um a um.

"E após ele vieram outros, e ainda outros, Sapucaí, Maranguape, Itaúna, e outros mais, até que se confundiram todos e desapareceu tudo, cousas e pessoas, como sucede às visões. Pareceu-me vê-los enfiar por um corredor escuro, cuja porta era fechada por um homem de capa preta, meias de seda preta, calções pretos e sapatos de fivela. Este era nada menos que o próprio porteiro do Senado, vestido segundo as praxes do tempo, nos dias de abertura e encerramento da assembléia geral. Quanta coisa obsoleta! Alguém ainda quis obstar à ação do porteiro, mas tinha o gesto tão cansado e vagaroso que não alcançou nada: aquele deu volta à chave, envolveu-se na capa, saiu por uma das janelas e esvaiu-se no ar, a caminho de algum cemitério, provavelmente. Se valesse a pena saber o nome do cemitério, iria eu catá-lo, mas não vale;todos os cemitérios se parecem."

sábado, 9 de maio de 2009

DESIGNER GRÁFICO


CRIAÇÃO E ARTE FINAL DE CAPAS DE LIVROS
Contato: [41] 3076-7631 - E-mail: picinez@gmail.com
João de Deus Netto
CARICATURAS EM BANNERS PARA EXPOSIÇÃO NO SALÃO DO LIVRO DO PIAUÍ/2009

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Edmílson Caminha

EL INSPECTOR DE AVES Y CONEJOS
(O LA RELATIVIDAD DE LA REJA)

El decreto del Dr. Emilio Siri, muy noble intendente de la Ciudad Autónoma de Hermosa Vista, es un primor de concisión textual, de decoro público y de competencia administrativa: “Se nombra Francisco Isidoro Acevedo inspector de aves y conejos de la Municipalidad.” Así, el director de la Biblioteca Alejandrina debería, ya en el día seguiente, cambiar documentos y libros por gallinas y liebres.
Instado por la prensa a explicarse, negó el circunspecto intendente Emilio que fuera el nombramiento una venganza mezquina por la oposición del talentoso cuentista y poeta al nuevo Presidente de la República, José Sábato Monzón: “¡Nunca! ¡Jamás! Nuestro país inaugura una nueva era de desarrollo económico y de perfeccionamento cultural, en que los escritores cuidarán de gallinas y los avicultores escribirán poemas y cuentos. ¡Es una verdadera revolución en el universo del conocimiento y del saber!”
Francisco pensó en no aceptar el honor de la inspectoría, pero luego cambió de idea: “Al contrario de los hombres, no hay ninguna gallina tan estúpida que no pueda enseñarme alguna cosa.” Y a la mañana temprano allá estaba él, entre el cloqueo de las aves y el filosófico silencio de los conejos.
Uno de estos se quedaba absolutamente inmóvil, diciendole com su mirada roja: “Hay una reja entre nosotros, y para mí no soy yo quien está del outro lado, sino vos.” En un segundo, Francisco pasó de observador a observado, como si fuera él el confinado.
Entonces se sintió parte de una extraña especie animal. Tan insólita como si no fuesen los conejos solamente conejos, simplemente conejos, sino que entre ellos hubiera directores de bibliotecas y inspectores de las decenas de clases en que se dividen los hombres. Una especie tan ridícula como si un conejo mandamás nombrase a un conejo escritor para inspeccionar intendentes municipales y presidentes de la república.
Edmílson Caminha é escritor, jornalista, professor de literatura brasileira e de língua portuguesa, consultor legislativo, por concurso público de provas e títulos, em Brasília.

quarta-feira, 25 de março de 2009

ADÉLIA PRADO

Eu quero amor feinho. Amor feinho não olha um pro outro. Uma vez encontrado, é igual fé, não teologa mais. Duro de forte, o amor feinho é magro, doido por sexo e filhos tem os quantos haja. Tudo que não fala, faz. Planta beijo de três cores ao redor da casa e saudade roxa e branca, da comum e da dobrada. Amor feinho é bom porque não fica velho. Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é: eu sou homem você é mulher. Amor feinho não tem ilusão, o que ele tem é esperança:eu quero amor feinho.

segunda-feira, 9 de março de 2009

14 de Março - DIA DA POESIA


OS POEMAS

Os poemas são como pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...


(Mário Quintana - Esconderijos do Tempo)

sábado, 28 de fevereiro de 2009

“Estou no hospício, onde me fazem veranear de quando em quando para me prolongar à vida e essa estulta mania de escrever. (...) estou no Cemitério dos Vivos, que, por ironia das denominações, fica na Praia da Saudade”.
O cemitério dos vivos talvez seja a obra por excelência de Lima Barreto que trata do tema da sua doença.Tem como ponto central da narrativa o sistema de tratamento destinado àqueles considerados loucos pela medicina do início do século XX e, apesar de não ter conseguido terminar este romance, o escritor deixou fragmentos importantes que apontam para o exercício do poder dentro do próprio asilo e a tensão nas relações entre médicos e pacientes, bem como as deficiências das práticas psiquiátricas terapêuticas.A denúncia das mazelas do regime republicano se estenderia também para o interior dos muros do Hospício Nacional de Alienados e indicaria as permanências e continuidades do novo regime em relação ao sistema de tratamento dos doentes ali internados. Sua doença foi classificada como decorrente do uso longo e abusivo de bebidas alcoólicas, algo próximo seria classificado hoje como transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de álcool.No ano de 1914 (aos 33 anos) seria internado pela primeira vez no Hospício Nacional de Alienados, na cidade do Rio de Janeiro. A chegada deste ilustre paciente ao asilo da Praia Vermelha foi marcada pela dolorosa experiência de ter sido conduzido num carro-forte da Polícia, episódio que descreveu cinco anos mais tarde, na ocasião de sua segunda internação no asilo, que aconteceu no Natal de 1919. Após ter abusado do Paraty, o autor voltaria a engrossar as estatísticas do número de pacientes internados com o diagnóstico de alcoolismo no Cemitério dos Vivos, outra denominação a qual recorria quando desejava referir-se ao antigo Hospício de Pedro II. Foi durante este período que resolveu coligir observações interessantíssimas com a finalidade de escrever um livro sobre a vida interna dos hospitais de loucos, projeto que deixou inacabado ao morrer em 1922. O próprio autor comenta suas conclusões sobre a experiência manicomial: “tinha adquirido um grande desprezo pela opinião pública, que vê como criminoso um sujeito que passa pelo Hospício ” e ainda “O terrível nessa cousa de hospital é ter-se de receber um médico que nos é imposto e muitas vezes não é da nossa confiança. Além disso, o médico que tem em sua frente um doente de que a polícia é tutor e a impersonalidade da lei, curador, por melhor que seja, não o tem mais na conta de gente, é um náufrago, um rebotalho da sociedade, a sua infelicidade e desgraça podem ainda ser úteis à salvação dos outros”

AFONSO HENRIQUES DE LIMA BARRETO nasceu a 13 de maio de 1881 no Rio de Janeiro. Filho de uma escrava com um português, cursou as primeiras letras em Niterói e depois transferiu-se para o Colégio Pedro II. Em 1897 ingressou no curso de engenharia da Escola Politécnica.
Apesar do emprego público e das várias colaborações no jornais da época lhe darem uma certa estabilidade financeira, Lima Barreto começou a entregar-se ao álcool e a ter profundas crises de depressão. Tudo isso causado pelo preconceito racial.


"Não é confortável para a poesia ser comportada. É muito melhor que seja incorfomada. Os absurdos, os despropósitos são bens da poesia. O bom senso é sempre uma censura à poesia. O bom senso pertence às ciências, às gramáticas, às matemáticas. Poesia é uma expressão fontana: como o amor, a água, o sol. Fazer que o poema defenda teses é uma aberração. Gosto de furar gramáticas, de entortar sintaxes".
Sobre a criança: "A criança está disponível para a poesia. A criança ainda não sabe o comportamento das coisas. E pode inventar. Pode botar aflição nas pedras e assim por diante. As crianças não sabem que pedra não tem aflição ou se os peixes dão flor".
Idiotas de estradas gostam de urinar em morrinhos deformigas. Apreciam de ver as formigas correndo deum canto para o outro, maluquinhas, sem calças, comocrianças. Dizem eles que estão infantilizando asformigas. Pode ser.
"Tenho paixão pelas coisas sem importância. As coisas muito importantes me aniquilam."
Manoel Wenceslau Leite de Barros nasceu em Cuiabá (MT) no Beco da Marinha, beira do Rio Cuiabá, em 19 de dezembro de 1916.

LYGIA FAGUNDES TELLES

“Vão ler, Mulheres!” Esse é o apelo de Lygia Fagundes Telles por um mundo menos fútil.

Por que as mulheres gostam de sair peladas nas revistas? E inclusive mulheres velhas! [risos] É deprimente essa vontade de se exibir. Até mulheres grávidas gostam de mostrar a barriga de nove meses... por que tenho de ver a barriga dela? São coisas íntimas. Eu gosto da privacidade. Uma vez vi aqui perto de casa um casal transando na rua. Passei perto e ainda tive de ouvir: “Nunca viu, tia?”. Respondi: “Assim na esquina é a primeira vez” [risos]. Você não acha que há uma vulgaridade excessiva em nosso tempo?

Mulher é, de fato, mais exibicionista do que homem?É preciso não pensarmos só nas revistas de débil mental que mostram mulher pelada, peitos, traseiro e tal. Acredito que há uma reação de mulheres escapando dessa servidão ao porre de vaidade. Vejo nas fábricas, nas universidades. Rimbaud uma vez disse: “Já cheguei ao limite da minha linguagem. Agora são as mulheres, quando souberem escrever”. As mulheres desvendam coisas que o homem não atinge, está compreendendo? Estão mais perto de uma cortina que se abre. A mulher consegue entrar no labirinto e sair melhor dele. Acho isso mais interessante do que ficar se exibindo por aí.

Você acha que as mulheres precisam da aprovação de outro – um homem ou outra mulher – para se sentirem belas?Olha, não pense que sou uma Santa Terezinha do Menino Jesus. Não tenho virtudes, sou frágil. Mas me deixa envergonhada o triunfo da vulgaridade. Não precisa ser vulgar! “Vaidade das vaidades, diz o Pregador no Eclesiastes, tudo é vaidade”. É preciso que a mulher escape dessa absoluta servidão tão humilhante e dolorida. Sim, cuidar do corpo, mas sem chegar ao desfrute nessa ânsia de perfeição para exibi-lo. Todos querem ser Gisele? Somos imperfeitos.“As mulheres desvendam coisas que o homem não atinge.A mulher entra no labirinto e sai melhor dele. Isso é mais interessante do que se exibir por aí”

Trecho de entrevista concedida ao jornalista, escritor e editor, Ronaldo Bressane.
Caricatura: Netto e quadro de
Cagnacci

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

CARICAMUNDI

O Brasil produziu, no último século e meio, um time notável de caricaturistas. Nesse time, o carioca Loredano Cássio Silva Fillho, conhecido como Loredano. Nas palavras de Millôr Fernandes, “filho de um oficial de cavalaria, Loredano desde cedo se sentiu obrigado a desmontar o ser humano”. Ele é um dos mais conceituados desenhistas brasileiros da atualidade, e um dos poucos de carreira internacional, com trabalhos publicados em veículos como o jornal francês Libération, o italiano La Repubblica, e há 21 anos ilustra o caderno de cultura do espanhol, El País. Morou na Alemanha onde colaborou para periódicos como o Frankfurter Allgemeine e Die Zeite. A peculiaridade de sua trajetória é que ele nunca se voltou para a charge, ou seja, para a crônica social e política feita por meio do desenho. Loredano é, antes de mais nada, um retratista. Dispensando diálogos e legendas, bem como a criação de "historinhas", ele reinventa – e às vezes desconstrói impiedosamente – a imagem de figuras célebres. Em três décadas de atuação, ele se especializou em retratos de políticos e de personalidades do mundo cultural. São inesquecíveis, por exemplo, muitos desenhos produzidos para os semanários Opinião e Pasquim e para o Jornal do Brasil durante a ditadura militar, assim como aqueles feitos na Europa para atacar líderes da extrema direita ou o fundamentalista islâmico aiatolá Khomeini, do Irã.

Valeu a intenção
Na ilustração/título do post, me rendi ao belíssimo preto nankin ao me atrever a caricaturizar o melhor caricaturista da atualidade, no Brasil. Precisa nem falar que tá escancarado o estilo. Tinha que ser o mais "Loredano" possível. Falta muito. Nada não, valeu a intenção. Se valeu...!


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

PATATIVA CHEGA AO PARAÍSO

RUBENIO MARCELO
São Pedro veio correndo
E disse pra São José:
-Convoque todos os anjos
Para cantarem com fé
E para o céu enfeitar,
Pois acabou de chegar
Patativa do Assaré!
-
A notícia espalhou-se
Na edênica amplidão;
Foi grande o alvoroço
Rumo ao principal salão...
Todos na expectativa
De abraçar Patativa
Logo na recepção.
-
Após a sua entrevista
C'o Senhor do Universo,
O Poeta Patativa,
Em meio a coros diversos,
Foi adentrando no céu,
Com pose de menestrel
E recitando seus versos...
-
Quem primeiro foi saudá-lo
Foi Padre Ciço Romão,
Que chegou acompanhado
Do velho Frei Damião;
E, numas palavras lindas,
Desejaram boas-vindas
Ao cantador do Sertão.
-
De repente, ouviu-se o tom
Duma viola e um refrão
Dizendo: - Seja bem vindo,
Patativa, meu irmão!
Era o grande Zé Limeira,
Também jogral de primeira,
Fazendo a saudação.
-
Foi grande a emoção
Daqueles dois cantadores;
Limeira e Patativa,
Representantes maiores
Da Cultura Popular,
Ficaram a improvisar
Ante os admiradores.
-
Depois ouviu-se o gemido
Duma sanfona, no ar...
Era o "Rei do Baião"
Que acabara de chegar;
E relembrando a lida,
Cantaram "Triste Partida",
Gonzaga e o Velho Patá.
-
Patativa, logo após, Disse:
"Lula, não se vá!
Fique só mais um pouquim,
O povo pode esperá;
Porque eu truxe uns versim,
Bote musga para mim,
Como no tempo de lá!"
-
Em seguida, foi chegando,
Com seu divino embolar,
O Jackson do Pandeiro,
Que logo sem vacilar,
Em sublimação altiva,
Cantou com o Patativa
"Vaca Estrela e Boi Fubá".
-
Depois veio João do Vale
E o Poeta Azulão;
Aderaldo, em seguida,
Com Catullo da Paixão;
E o Lourival Batista
Com mais cem dúzias de artistas
Foram entrando no salão...
-
Até os autores clássicos
Chegaram, sem filigrana.
Cazuza, Renato Russo,
Drummond e Mário Quintana
Vieram homenagear
O menestrel popular
Lá da Serra de Santana.
-
William Shakespeare
Com Victor Hugo e Rimbaud;
Molière e La Fontaine,
Com Stendhal e Saul Bellow,
Também fizeram questão
De apertarem a mão
Do matuto Cantador.
-
Avistando essa turma,
Nosso bardo camponês
Disse: "Quero avisá,
Não falo ingrês nem francês;
Pois trabaiando na roça
E vivendo nu'a paioça,
Só aprendi cearês!".
-
Claro qu'estava brincando
O cantador surreal;
Pois todos se compreendem
No Reino Celestial;
Naquela grã dimensão,
Não há qualquer distinção:
O Verbo é universal... (...)
-
RUBENIO MARCELO
É poeta, músico, compositor e animador cultural. Nasceu no Ceará, é bacharel em Direito e reside na capital sul-mato-grossense, onde mereceu o ingresso na Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.


sábado, 24 de janeiro de 2009

JORGE AMADO

Gabriela, cravo e canela inaugura uma nova fase na obra de Jorge Amado. A partir deste romance, o autor atenua o conteúdo político que marcou seus primeiros livros para dar ênfase à mistura racial, ao erotismo e a uma percepção sensorial do mundo. Ganham destaque as personagens femininas: as mulheres passam ao centro das narrativas como mito sexual, mas também como agentes do próprio desejo. Gabriela, cravo e canela foi o primeiro livro escrito por Jorge Amado depois de deixar o Partido Comunista. Publicado em 1958, o romance recebeu no ano seguinte os prêmios Machado de Assis e Jabuti. Pouco depois, em 1961, Jorge Amado seria eleito para a Academia Brasileira de Letras, em grande parte graças ao estrondoso sucesso do livro. Gabriela virou novela da TV Tupi, em 1961, e mais tarde da rede Globo, em 1975.
Até hoje a cena mais sensual da televisão brasileira de todos os tempos votada em várias enquetes, é esta da Gabriela (Sônia Braga) subindo em um telhado para pegar uma pipa, sob os olhares alvoroçados e certeiros dos moradores da então pequena Ilhéus dos coronéis freqüentadores diarista do famoso cabaré Bataclan. Traduzido para mais de trinta idiomas, Gabriela, cravo e canela é o livro de Jorge Amado com o maior número de traduções.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

JOSÉ LINS DO REGO

Dezembro de 1947.
"Tenho quarenta e seis anos, moreno, cabelos pretos, com meia duzia de fios brancos, um metro e 74 centímetros, casado, com três filhas e um genro, 86 quilos bem pesados, muita saúde e muito medo de morrer. Não gosto de trabalhar, não fumo, durmo com muitos sonhos, e já escrevi 11 romances. Se chove, tenho saudades do sol, se faz calor, tenho saudades da chuva. Vou ao futebol, e sofro como um pobre diabo. Jogo tenis, pessimamente, e daria tudo para ver meu clube campeão de tudo. Sou homem de paixões violentas. Temo os poderes de Deus, e fui devoto de Nossa Senhora da Conceição. Enfim, literato da cabeça aos pés, amigo de meus amigos e capaz de tudo se me pisarem nos calos. Perco então a cabeça e fico ridículo. Não sou mau pagador. Se tenho, pago, mas se não tenho, não pago, e não perco o sono por isso. Afinal de contas, sou um homem como os outros. E Deus queira que assim continue."(José Lins do Rego)

Filho de João do Rego Cavalcanti e de Amélia Lins Cavalcanti, JOSÉ LINS DO REGO CAVALCANTI nasceu em 3 de julho de 1901 no Engenho do Corredor, município de Pilar, na Paraíba.
O escritor paraibano era flamenguista de carteirinha e literatura, tanto que escreveu o livro ”Flamengo é puro amor”. Coincidência ou não, as mesmas cores da bandeira da sua Paraíba.

GABRIEL PERISSÉ

Há uma crônica especialmente curiosa de Rubem Braga publicada no Diário de São Paulo (em que Mário de Andrade escrevia sobre música), quando o cronista tinha apenas 21 anos de idade e mal começara a trabalhar, depois de ter concluído o curso de Direito em Belo Horizonte. Inícios do ano de 1934, poucos meses depois de sua estréia, Rubem escreve uma crônica intitulada Ao respeitável público: "Chegou meu dia. Todo cronista tem seu dia em que, não tendo nada a escrever, fala da falta de assunto. Chegou meu dia. Que bela tarde para não se escrever!" O que parecia ser apenas uma pequena encenação para começar a escrever mostra-se, contudo, um texto agressivo, violento, contra o leitor: "meu distinto leitor, (...) minha encantadora leitora, queiram ter a fineza de retirar os olhos desta coluna. Não leiam mais. Fiquem sabendo que eu secretamente os odeio a todos; que vocês todos são pessoas aborrecidas e irritantes; que eu desejo sinceramente que todos tenham um péssimo Carnaval, uma horrível quaresma, um infelicíssimo ano de 1934, uma vida toda trapalhada, uma morte estúpida!"
Ironizando a linguagem formal com que o "prezado e distinto leitor" era tratado pelos escritores, Rubem abre seu coração de urso e o despreza acintosamente. Como ousa você, leitor(a), vir incomodar-me? "Aqui nesta coluna, eu nunca lhes direi nada, mas nada de nada, que sirva para o que quer que seja. E não direi porque não quero; porque não me interessa; porque vocês não me agradam; porque eu os detesto." Trata-se aqui de um modo bem direto de morte do autor e morte do leitor. Não haverá diálogo. O cronista cansou-se de ser objeto de curiosidade, bem como de indiferença, pois nada mais fácil do que não ser lido no jornal. Os dois últimos parágrafos da crônica não dão trégua ao leitor que, no entanto, não consegue mais desgrudar-se da leitura: "Fiquem sabendo que eu hoje tinha assunto e os recusei todos. Eu poderia, se quisesse, neste momento, escrever duzentas crônicas engraçadinhas ou tristes, boas ou imbecis, úteis ou inúteis, interessantes ou cacetes. Assunto não falta, porque eu me acostumei a aproveitar qualquer assunto." Mas o fato é que ele quis naquele dia ser absolutamente sincero e declarar pela primeira vez (e provavelmente última também) que odiava o seu leitorado. E, por fim: "Amanhã eu posso voltar bonzinho (...). Saibam desde já que eu farei isto porque sou cretino por profissão; mas que com todas as forças da alma eu desejo que vocês todos morram de erisipela ou de peste bubônica.
Até amanhã. Passem mal."

Gabriel Perissé - Escritor e Doutor em Filosofia da Educação.


segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

PRÓSPERO ANO NOVO!

“Diga: o que lhe vai acontecer agora?”

Eram oito da noite e, depois de ter atendido mais de 20 pessoas, o adivinho, cansado, preparava-se para ir para casa. Quando, porém, abriu a porta da sala, viu-se diante de um desconhecido, um homem alto, grande, forte que ali estava, imóvel no corredor do velho prédio. Por um instante ficaram os dois parados, olhando-se. Finalmente o homem disse:- Vim para uma consulta. O senhor poderia me atender?A primeira reação foi dizer que estava de saída; que o homem voltasse no dia seguinte. Mas era tão imperioso o tom do estranho – não estava pedindo, estava mandando – que mudou de idéia: sim, poderia atendê-lo. Convidou-o a entrar. Passaram pela pequena sala de espera e entraram naquilo que o adivinho chamava de “recinto mágico”: uma sala de razoável tamanho, guarnecida de pesadas cortinas de veludo vermelho desbotado. Uma mesa, várias cadeiras e, no centro da mesa, a bola de cristal que herdara do tio, famoso adivinho, e que ali estava, sobre a sua base de madeira de lei.Convidou o homem a sentar-se, sentou também, ambos iluminados pela luz mortiça de uma única e fraca lâmpada que, no entanto, fazia com que a bola de cristal emitisse uma espécie de mágica claridade.Normalmente o visitante deveria fazer alguma pergunta sobre como estaria a saúde ou o casamento ou o seu dinheiro no ano que entrava. Mas não foi isso o que o homem fez. Começou a falar, mas não sobre si mesmo, e sim sobre o adivinho.- O senhor é muito conhecido. Seus clientes dizem que raramente erra uma previsão. É verdade?Perplexo e inquieto, o adivinho disse que aquilo o envaidecia muito, que fazia o que podia, usando a misteriosa vocação que se manifestara na infância e recorrendo também àquela bola de cristal que era uma verdadeira fonte de inspiração, graças à qual sempre acertava as previsões. Mas o homem o interrompeu:- Eu sei de um caso em que o senhor errou. Um empresário que o procurou há muitos anos. O senhor disse que se sairia muito bem no ano que se iniciava, que abriria várias filiais e que todas seriam bem-sucedidas. O empresário abriu várias filiais por esse interior afora. Todas foram mal, todas. Ele faliu e depois se matou. É uma história que conheço muito bem. Esse homem era o meu pai.Uma pausa e ele continuou:- Esse foi um erro que o senhor cometeu. Vamos ver agora se o senhor acerta a sua previsão. Diga: o que vai lhe acontecer agora?O adivinho estava em pânico. Claramente o visitante estava ali para se vingar. Mas vingar-se como? O que faria? Pegou o lenço e enxugou o suor que lhe corria pelo rosto. E aí viu o revólver que o homem lhe apontava, sorridente:- O senhor tinha previsto isso? Que seria assaltado? E assaltado pelo filho do homem a quem o senhor há muito tempo enganou?Sem uma palavra, o adivinho entregou-lhe o dinheiro, tudo o que recebera no dia, o que não era pouco. O homem levantou-se. Antes de ir, olhou para a bola de cristal. "Vai arrebentá-la com um tiro", pensou o adivinho. Mas o homem sorriu:- Não, não vou dar um tiro na sua bola de cristal, fique tranqüilo. Mesmo porque o revólver é de brinquedo. Para assaltar alguém que brinca com o futuro é a arma ideal, não lhe parece? Boa noite. Abriu a porta e saiu. O adivinho suspirou. Estava na hora de atualizar suas técnicas. E talvez de trocar a bola de cristal.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

CAPA LIVRO INFANTIL


terça-feira, 18 de novembro de 2008

YAMANDÚ COSTA

A fúria dos pampas destroçando o violão

Nana Vaz de Castro
Jornalista e formada em Música pela UNI-RIO

Há quem pense que ele precisa de um novo violão a cada mês, tamanha é a violência com que castiga o instrumento. Mas não. O atual violão de Yamandu Costa, um Muñoz de sete cordas, é o mesmo há cerca de 11 anos, comprado de um amigo paulista. Foi paixão à primeira vista. "Estava hospedado na casa desse amigo, e nunca tinha tocado num sete cordas. Quando toquei fiquei louco, não larguei mais, comprei o violão dele", conta o gaúcho de 30 anos." Quem já viu Yamandu (pronuncia-se "Diamandu") tocando em shows ou rodas informais de samba e choro não esquece. Sua técnica chama a atenção pela originalidade. O som não é limpo como pretendem os adeptos do virtuosismo clássico. Mas o vigor sonoro que emana das cordas (essas sim, arrebentam com muita freqüência) e sua criatividade rítmica e harmônica fascinam mesmo os mais escolados freqüentadores de rodas de choro. "É uma técnica minha, brasileira, misturada com o clássico, com o vigor do tango e da música gaúcha. Agora por exemplo estou tocando o sete cordas, mas de uma forma diferente, sem fazer as baixarias típicas do choro" tenta explicar. Além do som, o que torna Yamandu inesquecível é sua postura um tanto "dramática" ao tocar. Ele se movimenta, levanta, senta, bate no violão, mistura pizzicato e rasqueado, o que faz com que alguns o considerem pretensioso na ânsia de mostrar tudo o que sabe fazer.

Ouça: Tristeza do Jeca - Brejeiro - Mariana
http://www.lastfm.com.br/music/Yamand%C3%BA+Costa
Canto superior direito, ao lado da foto.

Caricatura do Yamandú - O excelente caricaturista Gervásio é piauiense de Parnaíba e, desde o século passado, reside no Rio de Janeiro, mais precisamente, na República do Flamengo, vizinho da Embaixada do Piauí, no Bairro do Catete. Faz tanto tempo que deixou a região do Delta, que ele diz que assistiu a gravação do samba Pelo Telefone, do violonista Donga, na capital da Guanabara.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

GUINGA

Mário Marques

A bola vai de pé em pé. Parece um grande baile, só com pé-de-valsa. O salão é gramado e os dançarinos estão cheios de gás deslizando pelo solo. Quando olha o campo do Maracanã do alto das cadeiras especiais, Guinga vislumbra música. Narra e analisa o jogo como se estivesse numa gafieira ou num concerto. Há 20 anos não pisava no estádio. Estava ansioso para ver seu Vasco da Gama. Era 1997, ano em que seu time de coração havia arrebatado todos os títulos (Campeonato Carioca, Campeonato Brasileiro e Libertadores da América).
Carlos Althier de Souza Lemos Escobar, conhecido pelo apelido de Guinga, nasceu em 1950, no Rio de Janeiro, como jogador, sai-se bem; como técnico, acredita que muito melhor. Escalaria sua seleção assim: Villa-Lobos, Garoto, Jacob do Bandolim, Tom Jobim e Baden Powell; HermetoPascoal,HélioDelmiro, Chico Buarque e Proveta; Paulo Sérgio Santos e Lula Galvão. Fechou em 11. Mas Guinga acha que sua equipe não poderia parar aí. E continua. Acrescenta Milton Nascimento, Gilberto Gil, Claus Ogerman e mais uns 50. Diz que se tivesse todos em campo, jogaria uma partida de sonho. “Seria capaz até de deixar Roberto Dinamite no banco de reservas”.

Mário Marques é jornalista, crítico de música e biógrafo do músico e compositor Guinga

NOVO! JENIPAPO+MAIS: http://jenipapo.mais.zip.net/ - TEMAS ATUAIS - Charges, fotomontagens, sátiras, críticas; uma porrada fatal no politicamente correto.





quinta-feira, 16 de outubro de 2008

O CÓDICE E O CINZEL

O foco narrador deste filme é um olhar estrangeiro sobre o Pampa. O diretor, o piauiense Douglas Machado, dessa forma, faz um paralelo com a literatura produzida pelo escritor gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil, a qual desenvolve esse mesmo olhar. Além do universo literário do autor, "O Códice e o Cinzel" apresenta uma reflexão acerca de vários temas que circundam seu universo existencial e estético, como por exemplo, a Oficina de Criação Literária na PUCRS, o Pampa, Porto Alegre, Mozart e sua ascendência açoriana. Gravado no Brasil, Portugal [Lisboa e Ilha de São Miguel, nos Açores] e Espanha [Madrid].
O cineasta Douglas Machado falou sobre a produção do documentário e o contato com o escritor. “O que estava projetado para um documentário de 80 minutos se transformou em um longa-metragem de 143 minutos; o que estava previsto para centrar as gravações apenas no Rio Grande do Sul terminou nos levando a Portugal e a Espanha; o que seria lançado em um DVD simples foi reconfigurado para um DVD duplo. Nunca aconteceu algo parecido em minha carreira. Ademais, dizem sempre que há livros e filmes transformadores, para mim, o próprio realizar O Códice e o Cinzel é que foi transformador”, declara o diretor.

sábado, 4 de outubro de 2008

DALTON TREVISAN ABRE O LIVRO

Dalton Jérson Trevisan sempre foi avesso à imprensa, criando uma atmosfera de mistério em torno de seu nome. Não dá entrevistas nem gosta de ser fotografado. Deu bobeira no centro de Curitiba e eu, de pronto, caricaturizei o Vampiro. Talvez seja uma raridade essa caricatura. Assina apenas "D. Trevis" e não recebe a visita de estranhos. O apelido de "O Vampiro de Curitiba" veio do título de um de seus livros. Quando era estudante de Direito, Trevisan costumava lançar seus contos em modestos folhetos.

O coelhinho Dalton Trevisan

José Carlos Mendes Brandão

É a lembrança de um encontro com uma personagem de Dalton Trevisan. O autor invisível, inabordável, que ninguém entrevista? Pois eu conheci uma personagem dele, que entregou o misantropo, deu o serviço com a maior bonomia - o que é isso? Deu com a língua nos dentes, com a maior sem-cerimônia. Entregou o que havia para entregar e o que não havia tim-tim por tim-tim, que nem conto(...) A princípio não acreditei. Personagem do romance A Dona da Pensão? E Dalton já escrevera romances? (Ah, o encontro com Dona Marta foi em 1986.) Tanto se tem repetido que o seu caminho será do conto para o soneto, para o haicai, que eu me esquecia de que A Polaquinha acabara de sair (1985) e de que eu lera um outro romance dele, em uma velha edição artesanal, Sonata ao Luar. Já estava ali presente a linguagem de Dalton, a atmosfera sombria, sofrida, Aquilo era o aprendiz Dalton Trevisan, um dos mais sérios escritores que já houve(...) Dalton ficou de quarentena quando criança, preso (num sótão?) e por isso tem pavor de lugares fechados. Deixo aqui a interrogação: o que isso tem a ver com a sua arte? Dizem que o artista carrega algum trauma que o fez ver o mundo de maneira diferente; pode ser, às vezes, mas muita gente carrega traumas, pode ver o mundo de forma diferente ou não, sem ser necessariamente artista. Pode explicar o seu isolamento, a sua solidão, mas a arte é um ato solitário, não há novidade nisso(...) Verdade que Dalton colabora, fechando-se em seu casulo. Falar pouco não faz de ninguém um artista, nem um ser infeliz. Mas os outros têm de procurar o que há de estranho nesse estrangeiro que é o artista, como se não fôssemos todos estrangeiros neste mundo(...) De um lugarejo perto de Curitiba surgiu um filho natural do velho Trevisan, homem de conduta exemplar. O jovem Dalton revolta-se. O Vampiro de Curitiba é o pai de Dalton Trevisan, sabiam? Foi a sua vingança, é o que me conta a boa Dona Marta. Gostaria de acreditar, acho que até Dalton Trevisan gostaria de acreditar: é uma explicação simples demais, facilitaria bem as coisas. O vampiro de almas, vivendo do sangue dos corações solitários, seria um simples ressentido – simples, não? Nem sei por que levanto a questão – para os ressentidos, vá lá, ou para os que buscam explicações fáceis. Creio que a gênese da verdadeira arte não se explica. Não que seja um sopro divino – é trabalho árduo, o mais são questionamentos inúteis.
Felizmente Dalton conseguiu o sossego suficiente para continuar o seu trabalho insano. Levanta-se, cuida de sua horta, dá uma voltinha para comprar os jornais e depois escreve, escreve como um condenado. Viajou pela Europa e de lá trouxe o hábito de tomar a primeira refeição como os europeus, conta a Dona Marta. Fiquei com a imagem do coelhinho entre as suas cenouras, os brancos dentões à mostra. Feliz. É feliz essa ligação do homem com a natureza. Depois o coelhinho recolhe-se à sua toca, os pesados óculos no nariz, e passa a ver o mundo com outras cores. Usando um trocadilho (deplorável como todo trocadilho), diria que Dalton é daltônico, isto é, troca as cores, vê o mundo marrom, asfixiante, sem salvação. É um certo expressionismo, sem o qual a arte seria uma mera cópia da realidade. O artista ensina o homem a ver e de qualquer modo o salva. Salve, Dalton.

José Carlos Mendes Brandão nasceu em Dois Córregos, SP, em 28 de janeiro de 1947. Publicou O Emparedado, Exílio, Presença da Morte e Poemas de Amor. Ganhou os prêmios “Estadual de Literatura” (GB), “José Ermírio de Moraes”, do Pen Centre de São Paulo, para melhor livro de poesia do ano, V Bienal Nestlé de Literatura Brasileira, Brasília de Literatura, Nacional de Literatura “Cidade de Belo Horizonte” (2000, por um romance inédito, e 2002, por um livro de poesia também inédito).


GILBERTO Van Der FREIRE

Ainda há quem ache que melhor estaria o Brasil se tivesse sido colonizado pelos holandeses, por príncipes flamengos letrados e aristocráticos, em vez de portugueses analfabetos e promíscuos, por "Van isto um Van aquilo", em vez de Joaquins e Manuéis. Ele respondeu:
"Provavelmente isto: em vez de um Brasil que, com todas essas suas dificuldades, os seus problemas, os seus fracassos, é um Brasil onde ser negro não é opróbrio, onde ser mulato não é vergonha, onde ser pobre não é desonra onde tocar viola de papo para o ar não é indignidade, seria uma Java americana, mais rica, mais progressista, mais produtora de café ou de cacau que o Brasil de hoje, porém dominada por alguns daqueles preconceitos que tantos dos norte-europeus mais pan-econômicos e pancaucásicos levaram para o Oriente..."

JOÃO CABRAL DE MELO NETO

Por volta dos oito anos de idade, ele morava com a família em Recife e ía para o engenho no tempo das férias. Seu irmão Virgínio lembrava que, aos domingos, o administrador do engenho ia à feira fazer as compras de mantimentos para a casa. Nestas ocasiões João Cabral dava-lhe dinheiro e encomendava a compra de folhetos de cordel. À tarde ele ia para a moita do engenho e, com os empregados todos ao redor de si, lia três, quatro folhetins para o pessoal do engenho.
João Cabral de Melo Neto (*Recife, PE 1920 - + Rio de Janeiro, RJ 1999). Publicou, em 1942, Pedra do Sono, seu primeiro livro de poesia. Em 1945 saiu O Engenheiro, livro em que apresenta os princípios do rigor, da clareza e da objetividade, características pelas quais sua obra se tornou conhecida. Nesse mesmo ano entrou para a diplomacia, carreira a que se dedicaria nas décadas seguintes; serviu na Espanha, na Inglaterra, na França e no Senegal.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

GRACILIANO RAMOS

Uma vez numa editora quando ele não se encontrava por perto, alguém deu uma olhadinha xereta num texto que estava revisando. Era uma daquelas pieguices típicas que se escreve no Natal. O xereta viu lá uma canetada furiosa de Graciliano Ramos sobre um trecho em que se dizia "bimbalham os sinos": "Bimbalham os sinos é a p...q...p...!!!".
Palavra, para ele, não era coisa com que se brincasse. Ele sabia que pode se erguer todo um estudo preciso do caráter pelo tipo de texto apresentado por um ou outro homem. A escolha de adjetivos e superlativos quase sempre revela hipocrisia interesseira - basta ver os terríveis vícios de retórica e eufemismos da classe política, por exemplo. O atualíssimo “velho” Graça!”.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Euclides da Cunha

Em 4 de novembro de 1888, o ministro da Guerra, Tomás Coelho, visitava a Escola Miiltar da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro. Os alunos em forma, numa revista de mostra, "fuzis perfilados em continência nos ombros", com sabre engatado na espingarda, saudavam a autoridade monárquica. Ao passar diante do ardoroso jovem republicano, Euclides da Cunha, este atirou a arma aos pés do ministro (ou o sabre?). O fato é conhecido como "episódio do sabre". O ato de indisciplina levou o cadete à prisão, transferido, logo depois, para o Hospital Militar do Castelo, em respeito ao laudo médico que atestava esgotamento nervoso por excesso de estudo. Diante dos juízes, o destemido Euclides confirmou sua fé republicana, sendo então transferido para a Fortaleza de São João, aguardando conselho de guerra, cujo julgamento não se realizou, pela intervenção de muitos. D. Pedro II lhe perdoou. Em 11 de dezembro, foi cancelada sua matrícula. No final daquele 1888, o jovem Euclides estava em São Paulo. Dia 22 de dezembro, iniciou sua colaboração no jornal "A Província de S. Paulo", escrevendo sob o pseudônimo de Proudhon (escritor francês [1809 - 1865], um dos teóricos do Socialismo que proclamou ser a propriedade privada um roubo, pregando uma revolução que igualaria os indivíduos).

"Para abalar a terra inteira basta-lhe um ato simplíssimo - cruzar os braços". (Euclides da Cunha)

Raquel de Queiroz

Sua simpatia com o Partido Comunista custou-lhe o título de Agitadora Comunista dada pela polícia política de Pernambuco. Seu livro, "João Miguel", já estava no prelo quando foi informada que deveria submeter o livro à censura pelo Partido. Semana depois Rachel é informada que o Partido não aprovara sua obra pois um trabalhador era morto, por outro, na história. Rachel, fingiu concordar e fugiu do local com os originais depois de dizer que o partido não possuía autoridade para censurar sua obra. Este fato levou ao rompimento com o Partido Comunista.
Ela lembra que começou a escrever para jornais aos 19 anos e nunca mais parou. Considerava pequeno o número de livros que publicou. “Para mim, foram só cinco, (além de O Quinze, As Três Marias, Dora, Doralina, O Galo de Ouro e Memorial de Maria Moura), Pois os outros eram compilações de crônicas que fiz para imprensa, sem muito prazer de escrever, mas porque precisava sustentar-me”, recordava ela. “Na verdade, eu não gosto de escrever e se eu morrer agora, não vão encontrar nada inédito na minha casa”.

Ferreira Gullar

Cantiga para não morrer

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa,
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

sábado, 6 de setembro de 2008

PAULO LEMINSKI

DESENCONTRÁRIOS
Mandei a palavra rimar,ela não me obedeceu.
Falou em mar, em céu, em rosa,em grego, em silêncio, em prosa.
Parecia fora de si,a sílaba silenciosa.
mandei a frase sonhar,e ela se foi num labirinto.
Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército,
para conquistar um império extinto
....
Marginal é quem escreve à margem,
deixando branca a página
para que a paisagem passee
deixe tudo claro à sua passagem.
Marginal, escrever na entrelinha,
sem nunca saber direito
quem veio primeiro,o ovo ou a galinha.

Paulo Leminski Filho (Curitiba - PR, 1944 - idem 1989). Publicou seus primeiros poemas em 1964, na revista Invenção, porta-voz da poesia concreta paulista. No período, trabalhava como Professor de História e Redação em cursos pré-vestibulares e professor de judô. Músico e letrista, nos anos de 1970 teve canções gravadas por A Cor do Som, Paulinho Boca de Cantor, Moraes Moreira.
Suas influências declaradas foram a contracultura dos anos 60, o concretismo ("a loucura que aquilo representa, a ampliação dos espaços da imaginação, e das possibilidades de novo dizer, de novo sentir, de novo e mais expressar"), João Cabral, Guimarães Rosa, Samuel Beckett (autor americano do teatro do absurdo), John Lennon, Matsuo Bashô (poeta japonês samurai do séc. XVII, considerado o pai do haicai), Trótski (revolucionário comunista russo), Jesus Cristo e Cruz e Souza (poeta simbolista negro catarinense).
“Ser poeta é ter nascido com um erro de programação genética que faz com que, em lugar de você usar as palavras pra apresentar o sentido delas, você se compraz em ficar mostrando como elas são bonitas, têm um rabinho gostoso, são um tesão de palavra”. E acrescenta, reafirmando a correspondência sexual da fruição poética: “O poeta é aquele que deglute a palavra como objeto sexual mesmo, como um objeto erótico. Para mim, a poesia é a erotização da linguagem, o princípio de prazer na linguagem”.


terça-feira, 2 de setembro de 2008

O ORGULHOSO SUASSUNA


Uma vez uns colegas conseguiram uma bolsa do governo francês para eu estudar. Quando já estava quase tudo preparado, um deles disse: "você tem que ir, porque um escritor brasileiro não conhece o Brasil se não fizer um curso na Europa". Aí eu disse: "pois eu não vou mais, não. O gringo que quiser me conhecer agora tem que vir aqui, porque eu não vou lá". Eu era muito jovem quando disse isso, e não é que não se cumpriu, isso? Eu não fui lá e tem gringo que vem por aí para falar comigo. Esse orgulho eu tenho.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

HASSAN UBALDO RIBEIRO


João Ubaldo conta que não pretende voltar tão cedo aos Estados Unidos, país com o qual mantém, há anos, uma agradável relação. "Aprendi inglês menino, com americanos, e até hoje costumo resmungar em inglês", explica. "Mas, em uma das últimas vezes que fui lá, a convite de uma universidade, fui tirado da fila de embarque por um policial que não foi com minha cara de feições árabes. Além de me revistar por inteiro, fez com que seu cachorro me cheirasse em todas as partes do corpo, sem nenhum exceção. Assim, tornou-se difícil visitar um país assombrado pelo medo."
No retrato falado da CIA vemos o “terrorista” com o berimbau, uma terrível arma de extinção em massa fabricada na Bahia, logo após a sua deportação.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

CARLOS HEITOR CONY

Nasceu no dia 14 de março de 1926 na cidade do Rio de Janeiro, faz sua primeira comunhão e passa a ser ajudante de missa na Igreja Nossa Senhora de Lourdes, no bairro de Vila Isabel. Sua dificuldade com a dicção das palavras - principalmente trocando o "g" pelo "d" - fazia com que fosse alvo das brincadeiras de seus amigos. Resolve, então, escrever inúmeras vezes a palavra "fogão" em seu caderno. Mostra aos amigos e, como eles não riram, entendeu que para não se tornar motivo de chacota deveria dedicar-se à palavra escrita.
Grande escritor e jornalista brasileiro que aos 80 anos nos presenteia com o romance O Adiantado da Hora, onde o personagem Seabra, um deputado cassado, jura por todos os pais de santos, que transou com a Madre Teresa de Calcutá.
- “Mantenho minha inquietação diante das coisas. Acho que este livro expressa meu anarquismo e minha liberdade de criação”.